Lágrimas de um folião

O texto a seguir foi publicado na coluna Crônica da Cidade, do Correio Braziliense, assinada por Conceição Freitas. No entanto, as bem-traçadas linhas foram escritas por um leitor. Legítimo folião. Um perfeito desabafo para uma Brasília que anda bem abafada.

Lançamos a proposta: Se você conhece Marcelo, leve ele para o Suvaco. Queremos enchê-lo de “abraços, risos, suores, sorrisos”. Cadê você, Marcelo???

Carta de um leitor

Conceição, hoje finalmente me dei por vencido. Muitas vezes me revoltei com os comentários de pessoas de fora, de membros da minha família de que a cidade se parece com um cemitério, ri quando me chamaram a atenção para o fato de que os cachorros aqui não latem, quando estranharam o fato de tão pouca gente desfrutar das áreas verdes, das crianças não brincarem nas quadras, de haver tão poucos bancos para que as pessoas tomassem conta realmente daquilo que é seu.

Amo esta cidade, amo. Mas hoje percebi que o que amo de verdade é a cidade que ela poderia ser, e não a que é. Não consigo mais separar a genialidade do doutor Lucio Costa e os estonteantes verde e azul dos gramados e do céu, da falta de convivência, da intransigência e da hipocrisia dessa classe média sombria que se assenhora dos espaços públicos como se fossem os quintais da sua casa.

Brasília. A cidade sonhada. Visionária. Planejada. Que teve seu sonho esmagado pelo automovél. Pela mediocridade. Pelo medo infundado. Pela arrogância dos que se acham exclusivos. Cidade que reinventou o termo “sossego”, utilizando-o para justificar toda sorte de arbítrio.

O silêncio que antes me encantava, agora me oprime. Depois de uma semana em que fui parado em três blitze num intervalo de 48 horas, em que o Galinho decretou seu próprio fim, em que o prefeito de uma quadra reclamou da vendedora de pamonha e de barulho de bar em tardes de sábado, em que o ego do doutor Niemeyer se arvorou a defender o indefensável, em que vi o pilotis do meu prédio ser cercado por arames de cercas vivas, em que a administradora de Brasília comemorou a vitória da meia dúzia de mal-humorados da 203/204, em que foram propostos os aumentos das tarifas do transporte público tornando-o, disparado, o mais caro do país e provavelmente o mais ineficiente e o que mais desrespeita o cidadão, em que, mais uma vez, fui praticamente expulso de um restaurante à meia-noite porque minha presença e a de qualquer outra pessoa incomoda o sono de algum morto-vivo que habita uma janela próxima em um bloco construído fora das especificações do projeto inicial da cidade, me dou por vencido.

A lua-de-mel acabou. Sim, parece um cemitério triste. Não, não venham pra cá no carnaval. O elevador da torre está quebrado, o parque infantil interditado, a polícia bate em quem ousa brincar o frevo na rua e você vai ter que ir cedo pra casa, porque o lazer tem hora pra acabar, mesmo para os que estão de férias. Vá para outro lugar, e quando eu puder, vou me encontrar com vocês.

Já não tenho mais vontade de envelhecer aqui. Já não acho que aqui seja um bom lugar para as crianças crescerem. Todo esse sol merecia mais sorrisos. Todo esse azul merecia mais alegria. Todo esse verde merecia mais gente, mais som, mais tolerância. Toda essa genialidade urbanística merecia mais bom senso.

Muito triste acabei de comprar minha passagem para o carnaval. Vou pra Recife. Preciso de abraços, risos, suores, sorrisos. E também de gente namorando, vizinho brigando, cachorro latindo de noite, uma eventual madrugada sem hora pra acabar, e qualquer manifestação natural, que não tenha local certo, hora pra começar e acabar determinadas por autoridades. Estou triste. Muito triste. Um abraço. Marcelo. ”

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